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Projeto reúne nova geração de intérpretes, mobiliza repertório clássico e aposta na releitura como ponte entre público histórico e novos ouvintes

por_Leonardo Lichote do_Rio

Projeto reúne nova geração de intérpretes, mobiliza repertório clássico e aposta na releitura como ponte entre público histórico e novos ouvintes

por_Leonardo Lichote do_Rio

MPB Ano Zero — projeto que reúne 22 gravações de obras fundamentais da canção brasileira reinterpretadas por artistas contemporâneos, além de shows e minidocumentários — parte de uma pergunta central: o que significa falar em MPB hoje, 60 anos depois da consolidação da sigla? A resposta do projeto não é nostálgica nem defensiva, mas provocativa.

foto_divulgação

“A MPB é a canção brasileira atravessada pela História”, afirma Hugo Sukman, responsável pelo projeto ao lado de Augusto Martins e Marcelo Cabanas. Ao desenvolver a ideia, ele diz que se trata de um tipo de canção que, a partir de 1964, incorpora explicitamente política, pensamento social e discussões estéticas. Para Sukman, algo decisivo acontece “na virada de 31 de março para 1º de abril”, data do golpe civil-militar. Naquele momento, a canção deixa de fazer sentido apenas como expressão lírica individual e passa a assumir uma dimensão histórica mais evidente.

Ao explicar o conceito que orienta MPB Ano Zero, Hugo Sukman chama atenção para um aspecto formal da sigla. “A MPB não é de gênero, mas trabalha todos os gêneros”, afirma. E detalha: “Você pega a música brasileira hoje, ela é primordialmente de gênero: é sertaneja, é funk, é pagode. A MPB é o contrário disso."

Para ele, essa característica diferencia a MPB da lógica de segmentação que organiza o mercado contemporâneo. No caso da MPB, diz, uma mesma tradição pode abrigar canções formalmente distintas — um samba como “Construção” e uma balada de sabor folk como “Paralelas” —, sem que isso a descaracterize.

Augusto Martins reforça essa leitura ao destacar que a MPB nasce de uma “música muito brasileira e muito sofisticada”, capaz de incorporar matrizes regionais e urbanas sem se limitar a nenhuma delas. “É essa coisa dos ritmos brasileiros cantados, tocados de uma determinada maneira”, observa.

É a partir dessa leitura que MPB Ano Zero organiza sua proposta. O projeto articula 22 gravações lançadas como singles e reunidas em álbum digital pela Biscoito Fino, 20 shows realizados ao longo de 2025 no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Rio de Janeiro, e uma série de minidocumentários individuais sobre os artistas participantes. A estrutura múltipla — estúdio, palco, audiovisual — busca dar conta da complexidade da proposta: celebrar seis décadas de repertório sem transformá-las em peça de museu.

Como é que a gente pesca esse público da MPB para artistas que estão fora do radar dele? Porque esse público existe.

Augusto Martins, um dos responsáveis pelo projeto

O título concentra a tensão central. Inspirado no filme “Alemanha Ano Zero”, de Roberto Rossellini, o nome sugere simultaneamente ruína e recomeço. “É tanto o fim como o início”, diz Sukman. “É uma proposta de discussão. A MPB está acabando ou ela está recomeçando? São 60 anos. Tem uma provocação aí. De um lado, a gente está celebrando esses 60 anos de uma forma que eu não acho nostálgica. Pelo contrário, acho que as versões são todas muito arrojadas, mas sem querer desconstruir. Era trazer para a linguagem contemporânea e para a linguagem pessoal desses artistas.”

MPB4, PADRINHO DO PROJETO

A escolha de “Bendegó”, de Claudia Castelo Branco e Renato Frazão, como faixa inaugural — gravada no projeto pelo MPB4, grupo que deu consistência à sigla e ao que ela representa — sintetiza esse gesto. A canção narra o incêndio do Museu Nacional como metáfora de sobrevivência histórica. Para Sukman, era impossível ignorar a potência simbólica de uma música que transforma um trauma nacional em narrativa de resistência. E não por acaso o MPB4, grupo ligado ao Centro Popular de Cultura da UNE nos anos 1960, assume o papel de padrinho do projeto.

Mas o MPB Ano Zero não se limita a uma evocação histórica. Ele organiza um recorte contemporâneo bastante específico. Participam artistas como Ilessi, Thiago Amud, Breno Ruiz, Alfredo Del-Penho, Moyseis Marques, Juliana Linhares, Gabriel da Muda, Marina Íris, Camila Costa, Alice Passos e Renato Frazão. O projeto foi viabilizado por edital municipal, o que determinou um recorte majoritariamente carioca, mas o repertório — e a presença de artistas como Thiago Thiago de Mello, que tem um olhar especial sobre a música amazônica — amplia esse alcance.

Quase sempre, os artistas escolheram as canções que iam gravar. “Mas algumas eu impus”, diz Sukman, em tom de brincadeira. “Por exemplo, ao Breno eu falei: ‘Queria que você fizesse Disparada’. Porque ele vem do interior, tem essa pegada sertaneja. Eu achei que era a cara dele. Ele topou na hora”.

Sobre Gabriel da Muda, conhecido pelo seu trabalho em rodas de samba mas que também tem um viés delicado como compositor, Sukman relata: “Eu queria que ele fizesse alguma coisa do Aldir que não fosse samba. Sugeri ‘Catavento e Girassol’. Ele demorou a aceitar, mas acho que ficou incrível.”

foto_divulgação

Uma das diferenças fundamentais dessa geração para a geração clássica da MPB está na formação musical. “80, 90% deles estudaram em faculdades de música. Todos eles são arranjadores, têm um domínio total do processo criativo e de produção”, afirma Sukman. Augusto reforça que são artistas que escrevem arranjos vocais e instrumentais, dominam a harmonia e, muitas vezes, atuam como professores de música.

Nos anos 1960, mesmo compositores centrais da MPB dependiam frequentemente de arranjadores para a orquestração de seus discos. “Nenhum desses artistas da MPB fazia isso. Eles precisavam dos maestros”, observa Sukman.

foto_divulgação

Essa formação impacta diretamente as releituras. Não se trata de desconstrução iconoclasta, mas de diálogo estruturado. Em “Lero-Lero”, Alfredo Del-Penho e Moyseis Marques preservaram a arquitetura original da canção de Edu Lobo e Cacaso, mas introduziram cavaquinho e berimbau, criando um deslocamento rítmico que renova a escuta sem romper com a tradição. Da mesma forma, Thiago Amud escreve um quarteto de violoncelos para “Paralelas”, de Belchior, evidenciando domínio formal e consciência histórica.

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foto_montagem a partir de imagens de divulgação
Artistas participantes do projeto
Artistas participantes do projeto

ATRAINDO O PÚBLICO DA MPB

O projeto também se estrutura como estratégia de mediação de público. Augusto formula a questão com franqueza: “Como é que a gente pesca esse público da MPB para artistas que estão fora do radar dele? Porque esse público existe. Ele lota turnês de Gil, de Chico, de Djavan. Como é que a gente se comunica com esse público e faz esse caldo escorrer para cima desses artistas?”. A resposta encontrada foi utilizar repertório consagrado como ponte, permitindo que ouvintes tradicionais reencontrem essas canções por meio de novas vozes e que o público mais jovem desses intérpretes se aproxime do catálogo histórico.

Ao refletir sobre o lugar da MPB hoje, Sukman propõe uma leitura histórica do surgimento da MPB. Para ele, o momento de centralidade da MPB na televisão e no mercado foi uma exceção, não a regra. “Aquele auge com a televisão, festivais, novelas, uma série de meios em que esse tipo de canção se popularizou muito, foi uma anomalia do ponto de vista comercial”, afirma.

Ele lembra que, nos anos 1960 e 70, “você tinha Caetano Veloso fazendo peças artísticas de vanguarda no horário nobre”, algo difícil de se imaginar no cenário atual. A presença de compositores sofisticados em programas de grande audiência foi resultado de um contexto político, cultural e midiático específico.

Hoje, segundo ele, a canção mais elaborada volta a ocupar um espaço mais restrito. “Passado esse momento chamado clássico da MPB, a canção volta ao seu lugar normal. Uma música para festa, para festival”, ou seja, menos voltada para a reflexão, elaboração ou experiências formais.

Augusto explica que a ideia inicial era mais ambiciosa. “A ideia original era chamar 60 artistas, um por ano. Depois pensamos em gravar duas músicas por artista, uma autoral e uma clássica. Mas o edital privilegiava o show, e a gente teve que fazer escolhas.”

foto_Divulgação

MPB Ano Zero não pretende definir de maneira normativa o que é MPB. Ao contrário, propõe um recorte possível dentro de um universo amplo. Ao reunir artistas formados, repertórios históricos e uma estrutura que integra shows, gravações e audiovisual, o projeto recoloca a discussão em circulação pública.

Se a MPB nasceu como reação histórica, a pergunta que permanece é outra: ela ainda é capaz de atravessar o presente com a mesma densidade? O projeto não encerra a questão. Mas, ao organizá-la em forma de música — em gravações, em filmes, no palco —, ele a torna audível.

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