No trono do mainstream, a gaúcha se arrisca e, num projeto dividido com Roberto Menescal e Toquinho, troca (momentaneamente) o pop pelo mais internacional dos gêneros brasileiros
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Luísa Sonza alcançou um patamar de popularidade e métricas no streaming raro de ver no pop brasileiro. Seu anterior álbum, “Escândalo Íntimo” (2024), ganhou a certificação diamante pela Pro-Música (somando-se às outras 6 também de diamante, 5 de platina e 5 de ouro que ela colheu em toda a sua carreira). Suas audições no streaming passam de 5 bilhões, um patamar que a coloca ao lado de estrelas de primeira grandeza do mainstream nacional, como Anitta, Marília Mendonça, Ludmilla, Luan Santanna e Pabllo Vittar. Um lugar que permite a qualquer artista popular arriscar.
E ela o fez.
O surpreendente lançamento de “Bossa Sempre Nova”, em meados de janeiro, em colaboração com os pesos-pesados Roberto Menescal e Toquinho, ecoa movimentos similares recentes de outros astros e estrelas coroados pela popularidade e saindo de suas áreas de conforto. O caso mais recente e emblemático é o da espanhola Rosalía que, com seu “Lux”, emplacou pelo menos 12 canções baseadas na música clássica, e em gêneros “difíceis” como fado e flamenco, entre as mais ouvidas do planeta no Spotify.

Luísa e Menescal juntos
“Por mais que as pessoas me identifiquem como uma cantora pop, eu sempre transitei por muitos ritmos. Acho que esse trabalho foi novo e muito especial pra mim”, afirmou Sonza em declarações ao portal Terra. “Este é um projeto que nasceu de forma muito natural, a partir de algo que eu já vinha fazendo há algum tempo. Dividi-lo com essas lendas da bossa foi uma honra.”
FOCO NA GERAÇÃO Z
Em “Bossa Sempre Nova”, há uma canção nova, autoral, uma colaboração entre ela e Menescal. Trata-se de “Um Pouco de Mim”, que ajudou o álbum a liderar as audições no Apple Music logo após a estreia, além de entrar no top 10 em Portugal e outros mercados. Depois de construir uma carreira dentro de uma engrenagem pop marcada por alta exposição digital, a cantora e compositora gaúcha, de 27 anos, deu um tempo e desacelerou para pensar o repertório que traz clássicos da bossa em versões destinadas a se conectar com a geração Z, claramente desconectada do gênero brasileiro mais famoso em todo o mundo.
A decisão sobre quais dos 13 standards da bossa nova seriam regravados ficou com ela, Menescal e Toquinho. Este trouxe alguns dos seus clássicos compostos com Vinicius de Moraes, como “Carta ao Tom 74” e “Tarde em Itapuã”. Lados Bs ou faixas que fogem das listas principais do gênero, como “Nós e o Mar” (parceria de Menescal e Ronaldo Bôscoli), também entraram no repertório. E a inédita “Um Pouco de Mim” teve letra originalmente escrita por Luísa Sonza para ser gravada no gênero pop. Foi o produtor Douglas Moda quem a enviou a Menescal, para que este adaptasse a harmonia e o formato para o novo projeto.
Ainda que o discurso da espontaneidade faça parte da narrativa do lançamento, o álbum inevitavelmente dialoga com questões estruturais da indústria. Em um cenário saturado por singles e estratégias de impacto imediato, projetos conceituais e de fôlego mais longo passaram a cumprir também a função de reposicionamento estético e até simbólico. Em outras palavras, Luísa Sonza dá um salto criativo e aspira a um novo patamar no mercado. A associação com os lendários Menescal e Toquinho só reforça essa ideia.
“Eu pensei: como vai ser trabalhar com esses caras que são experts? Mas, quando vi o Menescal falando a mesma língua que eu na interpretação , pensei: agora eu estou em casa”, ela disse.
Diferentemente do que tem ocorrido cada vez mais em gêneros como o pop e o sertanejo, cujos múltiplos intérpretes e criadores frequentemente não podem estar fisicamente num mesmo lugar, a gravação de “Bossa Sempre Nova” ocorreu com todos juntos em estúdio. As sessões foram feitas com a cantora e músicos fazendo a execução concomitantemente, numa abordagem quase sem edição ou corte. A ideia, explicou Sonza, era buscar uma estética mais natural e clássica da bossa nova, com voz e instrumentos fusionados de maneira fluida.
Menescal, por sua vez, enquadrou a parceria como experiência criativa voltada ao presente e ao futuro, não como um projeto nostálgico.
“Eu tenho saudade do futuro. O passado já fiz, já cumpri. E, quando vem uma pessoa como ela, traz coisas novas… A gente experimentou muita coisa que eu nunca tinha feito”, ele declarou em entrevista ao TMC. Em outra conversa, destacou o contraste geracional como parte constitutiva do projeto: “É um negócio de 80 anos que nos separa quase. Mas a gente tem uma raiz junta. Isso é o que é importante.”
SHOW NO ROCK IN RIO
Já Toquinho enfatizou publicamente o significado cultural da escolha de repertório.

A cantora e compositora durante o evento de lançamento do álbum em São Paulo
“Tudo foi criado com muito carinho, dedicação e respeito ao seu trabalho”, ele afirmou, referindo-se a Sonza. “É importante uma representante da sua geração se debruçar em canções que fizeram parte da história da música brasileira.”
Embora estruturado majoritariamente em releituras, “Bossa Sempre Nova” também se posiciona como um teste de percepção de mercado. A bossa nova, gênero cuja presença no mainstream contemporâneo é episódica, raramente ocupa o centro de estratégias comerciais de artistas pop em alta rotação. Ao apostar nesse repertório, Sonza desloca o foco da lógica de hit imediato para um discurso de permanência e atemporalidade.
A própria cantora explicitou essa ambição ao comentar a recepção do projeto.
“Esse álbum, eu não penso nele (num ciclo de) meses. Acho que, antes mesmo de lançá-lo, ele já atravessou o tempo, atravessou gerações”, ela descreveu à Billboard.
Imediatamente depois do lançamento, a artista — como boa parte do mainstream nacional — entrou na voragem dos shows de carnaval. Em seguida, viajou de férias para a Europa. Ainda não há uma sequência de datas definida para a turnê do disco de bossa nova.
Uma pequena apresentação, em janeiro, no Blue Note São Paulo, marcou a entrega do trabalho. Já o único outro show confirmado é em tudo oposto a ele, bem a calhar para um projeto que se pretende ponte geracional e de estilos, uma ligação do público Gen Z pop de Luísa à atemporal bossa nova: será em pleno palco Mundo do Rock in Rio, em setembro que vem. Marcará a estreia do grande Menescal, aos 88 anos, no espaço principal do maior festival de música do Brasil. •
