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As pessoas

estão deixando

de escutar

música?

Relatos de desconexão com essa arte estão aumentando, e o cansaço generalizado com a vida digital pode afetar uma indústria bilionária

por_Eduardo Lemos Martin de_Bath, Reino Unido

Relatos de desconexão com essa arte estão aumentando, e o cansaço generalizado com a vida digital pode afetar uma indústria bilionária

por_Eduardo Lemos Martin de_Bath, Reino Unido

“Alguém aqui perdeu o interesse em escutar música do nada?", postou um usuário do fórum online Reddit em julho do ano passado. Ao questionamento vieram centenas de respostas. A maioria esmagadora dizia que sim: que, por uma razão ou outra, a quantidade de tempo ouvindo música está diminuindo. “Nenhuma música nova me anima, e eu me entedio ouvindo coisas velhas. Podcasts e programas de rádio são muito mais interessantes. Nunca imaginei que isso fosse acontecer comigo", relatou outro usuário.

foto_Divulgação

A banda Soma Soma

foto_Arquivo pessoal

O curador musical britânico Josh Mason-Quinn.

Na mesma época, a revista britânica Dazed publicou uma matéria com o título “Por que alguns jovens estão desistindo da música", em que pessoas na casa dos 20 e poucos anos relataram que simplesmente pararam de escutar canções. O principal motivo é a saturação de conteúdo da era digital, mas alguns entrevistados disseram que pausaram o som para finalmente terem acesso ao próprio silêncio.

Se não há evidências de que uma fuga massiva de ouvintes esteja em curso, também não é difícil supor que o excesso de informação, marca maior do nosso tempo, esteja afetando o nosso comportamento auditivo.

Há menos de duas décadas, escutar música, ir ao cinema, ler o jornal e ouvir rádio eram ações que fazíamos separadamente. Agora, elas muitas vezes acontecem ao mesmo tempo. É razoável supor que muitos ouvintes que relatam um desgaste na sua relação com os sons estejam, na verdade, esgotados pelo ciclo infinito de consumo dos nossos dias.

“Escutar música está cada vez mais parecido com o consumo de conteúdo em redes sociais. A capacidade de ouvir música está se tornando bastante fragmentada. Para muitos jovens, especialmente por serem nativos digitais, ouvir música se tornou algo muito visual. Eles podem estar olhando pela janela, jogando videogame etc. Então, não é que a música seja mais o foco", explica a psicóloga britânica Ruth Herbert, PhD em psicologia musical pela Universidade de Sheffield, professora das universidades de Kent e City St George, na Inglaterra, e que há anos pesquisa as diferentes formas que nos relacionamos com a música no dia a dia.

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CURADORIA ALGORÍTMICA

A indústria da música nunca registrou números tão grandiosos: a receita global da música gravada atingiu US$ 29,6 bilhões em 2024, mais de 100 mil novas faixas chegam ao Spotify diariamente, e artistas populares somam bilhões de plays em suas músicas. No entanto, do outro lado dessa moeda estão ouvintes com capacidade limitada de absorção de informação. Para resolver esse problema, as plataformas apostaram na curadoria algorítmica, que promete usar os seus dados para te entregar de bandeja músicas que você “certamente” vai gostar. É o fim da pesquisa, da descoberta, do acaso. Ao terceirizamos a escolha do que escutamos para uma máquina, a música passa a ser só mais um processo mecânico sobre o qual não temos muita ingerência.

foto_Arquivo pessoal

A psicóloga Ruth Herbert, especializada em música

“O problema com o streaming é que a música está se tornando cada vez mais distante para o ouvinte. Não é algo que você faz. Você não vai comprar um LP. Você não vai ver um artista. Então, é bastante preocupante que as pessoas pareçam precisar de um grande impacto (para se interessarem por algo). Então, acho que, em termos de atenção, as pessoas, e não são apenas os jovens, estão ficando mais apáticas", observa Herbert.

foto_Arquivo pessoal

Marcio Custódio, da loja Locomotiva, de São Paulo

Foi o oposto de apatia o que o curador musical britânico Josh Mason-Quinn experimentou ao ouvir "Ain't No Sunshine", de Bill Withers, no carro de sua mãe, quando ainda era criança. “Senti a música profundamente e, desde então, fiquei obcecado em descobrir músicas que você não apenas ouve, mas sente. Desde muito jovem, percebi que conseguia regular meu humor com a música. Parecia mágica para mim poder tocar música e, essencialmente, controlar minha previsão do tempo interna", conta o pesquisador.

Sob a alcunha de Somewhere Soul, ele soma mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, onde posta vídeos recomendando discos fora do mainstream. “Recebi inúmeras mensagens diretas de ouvintes de música que disseram ter desistido de descobrir novas músicas porque há muita coisa disponível, e eles não sabem por onde começar, então acabam ouvindo sempre as mesmas coisas que conhecem há anos. Os algoritmos de streaming simplesmente te mostram cada vez mais coisas que você já gosta, o que é bom a curto prazo, mas chega um ponto em que você se sente preso em uma câmara de eco e anseia por algum tipo de experiência nova, mas não sabe onde encontrá-la", observa Mason-Quinn.

O britânico, porém, acredita que há luz no fim do túnel. “Acho encorajador o número de pessoas que compram discos e o número de pessoas que abandonam ativamente as redes sociais. Quando as coisas vão longe demais, sempre há uma correção, e certamente as pessoas da minha geração parecem estar tomando medidas ativas para levar um estilo de vida mais analógico daqui para frente, que inclui coisas como ouvir vinil, CDs, fitas cassete e tocadores de MP3, para que possam formar uma relação mais profunda com o que estão ouvindo."

De fato, o mercado de discos de vinil há tempos deixou de ser coisa de aficionados. Em 2023, movimentou US$ 1,9 bilhão. A projeção para 2033 é de quase dobrar esse número. Pesquisas indicam que o principal consumidor deste segmento é a geração Z. “Percebo que muitos jovens começaram a colecionar discos, principalmente após a pandemia. Na loja, tivemos um aumento no número de pessoas mais jovens que vão procurar CDs e discos de vinil", conta Marcio Custódio, fundador da loja paulistana Locomotiva Discos, que completa:

“Conheço muitas pessoas jovens que passaram a escutar e a colecionar discos, tanto em CD quanto em vinil. Não desistiram completamente do streaming, mas passaram a consumir música em formato físico. A música acaba sendo mais valorizada, diferente do streaming, que é apenas mais um conteúdo que passa na sua tela. Além disso, vejo que muitas pessoas estão buscando novas formas de passar o tempo sem ficar presas à tela, e os discos, assim como os livros, são bons exemplos de como fazer isso.”

ATENÇÃO NÃO É O MESMO QUE CONEXÃO

As plataformas conseguem captar inúmeros dados sobre nossos hábitos de escuta — a retrospectiva do ano do Spotify não me deixa mentir —, mas ainda não encontraram uma forma de registrar os sentimentos que surgem quando ouvimos uma música, o que leva a uma pergunta: estaria a indústria apaixonada demais pelos dados e esquecendo que, sem ouvintes, não tem indústria?

O problema com o streaming é que a música está se tornando cada vez mais distante para o ouvinte. Em termos de atenção, as pessoas estão ficando mais apáticas.

Ruth Herbert, psicóloga britânica especializada em música

Para Marcos Pompiano, gerente de sincronização da Sony Music Publishing e com décadas de experiência no marketing musical, a resposta é sim. “O risco é confundir atenção com conexão. Esse é o grande problema. Embora as gravadoras tenham um business intelligence avançado, com informações que não acabam mais, a gente corre o risco de confundir o imediatismo com uma conexão mais verdadeira, capaz de criar um vínculo e uma permanência dos ouvintes", diz o executivo.

Pompiano defende o volume de novidades que chegam às plataformas todos os dias. “Eu não acredito que o excesso de lançamentos crie desinteresse. Eu acho que é o contrário: você cria mais opções de escuta", argumenta. Mas reconhece que “talvez esse volume todo precise de uma curadoria melhor. Às vezes, a gente fica muito confuso com a oferta de música."

Ruth Herbert relata que diversos professores, ao ensinar, perguntam aos alunos: "Então, o que você gosta de ouvir?". E a resposta é cada vez mais: "Não sei. Nunca pensei nisso." Para a pesquisadora, é preciso investir em educação musical nas escolas e, ao mesmo tempo, recuperar o caráter local da música — como, por exemplo, assegurar que as casas de shows pequenas e que servem às suas comunidades não desapareçam: “Precisamos de lugares onde não haja grandes atrações, e sim interações.”

No cardápio de consumo de música, a variedade é importante. Reduzir a experiência de escuta à internet faz com que a música se assemelhe mais a um conteúdo do que uma expressão artística. Ir a shows, por exemplo, é uma maneira de equilibrar essa dieta. É o que faz o compositor brasileiro Artur Tixiliski, da banda Soma Soma. “Eu acho que existe uma saturação. Por mais conveniente que Spotify seja, ficamos presos a mais um aplicativo. Já o ao vivo nunca me cansa.”

2 PERGUNTAS PARA O CURADOR JOSH MASON

Como curador musical cujo trabalho principal é ouvir, como você gerencia sua relação com a audição? Há alguma precaução que você toma para proteger sua capacidade de ouvir atentamente?

A maneira que encontro para garantir que estou ouvindo essa música com atenção é ouvindo discos de vinil. Vejo o streaming como um encontro rápido, e o relacionamento de verdade começa quando compro o disco. Também acho que pode ser muito útil incorporar a música à rotina. Por exemplo, todas as manhãs, antes do trabalho, ouço discos enquanto tomo meu café e brinco com minha filha. E isso é muito importante para mim. Da mesma forma que as pessoas não dispensam a academia, seus remédios ou um banho matinal.

Qual seria o seu conselho para alguém que está perdido no supermercado das plataformas e quase desistindo de ouvir música?

Eu diria para mergulhar em gêneros musicais totalmente novos para você. Psicodelia turca, boogie brasileiro, hip hop francês, samba angolano – esses são exemplos de maravilhosos caminhos que explorei no passado e que realmente me inspiraram. E se você estiver se sentindo sobrecarregado pela variedade de opções nas plataformas de streaming, não procure por novas músicas nelas. Busque por músicas no Bandcamp ou, ainda mais simples, em sites de lojas de discos locais. Encontrei muita música incrível em sites de lojas de discos, e é bom apoiar as lojas locais também. Também pode ser uma boa ideia sair e vivenciar mais música ao vivo; lembre-se de que a música tem tudo a ver com conexão humana!

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