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Brasil China

A MÚSICA

COMO PONTO

DE ENCONTRO

ENTRE BRASIL

E CHINA

A experiência profunda e transformadora de uma cantora e compositora brasileira em duas visitas ao país

por_Tulipa Ruiz de_São Paulo

A experiência profunda e transformadora de uma cantora e compositora brasileira em duas visitas ao país

por_Tulipa Ruiz de_São Paulo

Recentemente voltei de uma turnê na China após cinco anos da minha primeira passagem por lá. O mergulho inicial ocorreu em janeiro de 2020 e envolveu uma série de shows produzidos pela Embaixada do Brasil na China e uma residência artística em uma cidade no sudoeste do país chamada Lijiang, na província de Yunnan. A residência fazia parte de um projeto de intercâmbio cultural sino-brasileiro chamado China Tropical e lá fomos nós, fazer da música um lugar de encontros. Comigo estavam Gustavo Ruiz, meu irmão e produtor musical, Filipe Franco, videoartista e parceiro audiovisual, o músico Alexandre Amazonia, diretor do China Tropical, o engenheiro de som mexicano Ricardo Valdez e a artista chinesa YEHAIYAHAN.

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Tulipa x Tulipa: a artista vê um vídeo seu num telão na rua, em sua mais recente passagem pela China

Os dias de criação na residência artística em 2020 foram muito produtivos. Ficamos hospedados na zona rural, perto do lago Lashihai, aos pés da Montanha do Dragão de Jade, e fomos recepcionados por uma família de agricultores onde o filho mais velho, Jixing, recepcionava os artistas e contribuía com os processos artísticos. Na casa desses camponeses funciona o Lijiang Studio, programa de residência internacional voltado para experimentações no campo das artes que opera em total sintonia com a comunidade e a cultura local. Fizemos duas músicas com YEHAIYAHAN e gravamos muitas imagens para um futuro videoclipe, tocados pelas pessoas que encontramos e suas histórias. A região de Yunnan é reconhecida por sua pluralidade étnica e a principal etnia do lugar onde ficamos é a Naxi. Os Naxi migraram para o Sudoeste da China, vindos do Planalto Tibetano, e Lijiang é um dos lugares onde se estabeleceram. São trabalhadores da terra, profundamente conectados com a natureza.

fotos_Arquivo pessoal

Durante um show

Antes da imersão na roça chinesa e de todos os aprendizados com os artistas locais e a comunidade Naxi, estávamos em turnê por cidades muito grandes e populosas, como Pequim, Xangai e Chengdu. Existem 56 grupos étnicos reconhecidos pela China, e mais de 92% da população é da etnia Han. As outras 55 etnias são consideradas minorias étnicas, como os Naxi. Quantas semelhanças entre os povos originários da China e do Brasil. Impressionante. Principalmente no que diz respeito à percepção cosmológica do mundo e a abundância de línguas vivas. Há uma série de políticas de preservação da cultura das minorias na China, mas o que unifica a comunicação entre todos os povos é o uso do mandarim, falado pela maioria Han, como idioma oficial. Por conta disso, todas as peças audiovisuais chinesas são legendadas em mandarim, e os jovens das outras etnias aprendem mandarim na escola. Só aprendi essa porque pude conhecer pessoas que não têm o mandarim como primeira língua. O aprendizado na China não tem fim.

COOPERAÇÃO CULTURAL LONGEVA

Voltamos para o Brasil absolutamente encantados com a China e com a possibilidade de diálogo entre as nossas culturas, mas fomos atropelados pela pandemia. Começamos o ano de 2020 no Oriente e terminamos trancados em casa na cidade de São Paulo. Os anos seguintes foram de reconstrução de caminhos e o que vivemos na China ficou adormecido, enquanto outras demandas urgiam. Em 2025, a vida arrumou espaço para olharmos para o que tínhamos feito na nossa viagem ao Oriente. E assim, com esse novo pique, terminamos remotamente a produção das duas músicas que fizemos por lá, e o Filipe montou os clipes com imagens nossas na residência em Lijiang. As duas composições são cantadas por mim e pela YEHAIYAHAN e compostas por nós em parceria com o Gustavo. Metade em português e metade em chinês. O clipe tem legenda nos dois idiomas, para ninguém ficar perdido na poesia e é impressionante como ficou fluida a transição de uma língua para a outra. Como é possível uma artista brasileira e uma chinesa em uma mesma música? A indústria ainda não soube me responder essa pergunta.

Com YEHAIYAHAN e outros participantes da residência artística de 2020

Não dá pra ignorar o mercado chinês. A China faz negócios há mais de 3000 anos. Temos que aprender com eles.

Tulipa Ruiz

Empolgados com a nossa produção sino-brasileira, resolvemos lançar as canções nos dois mercados, brasileiro e chinês, junto com uma nova turnê na China, um retorno à comunidade de Lijiang e também a produção de um documentário que está em andamento sobre essa cooperação artística que atravessa tempo e fronteiras. Organizar uma turnê na China exige um trabalho hercúleo. É uma viagem cara, os fusos são opostos (ou seja, você produz também na madrugada para negociar com os contratantes chineses), e a turnê se torna inviável se você não buscar parceiros. Tivemos muitos apoios, como o Instituto Guimarães Rosa, a Embaixada do Brasil na China, o Consulado do Brasil em Xangai, a União Brasileira dos Compositores (UBC) e o SESC-SP. Nós, profissionais das artes, quando saímos de nosso país, tornamos-nos embaixadores de nossa cultura porque levamos o nosso país com a gente. Nos tornamos atores geopolíticos aproximando culturas. Por isso é tão importante quando um país reconhece seus artistas como agentes culturais globais e tem como projeto perene políticas públicas comprometidas com a circulação de sua produção cultural pelo mundo.

Com o auxílio da Embaixada Brasileira na China, que nos conectou com diversos equipamentos culturais, minha produtora Brocal, em parceria com as produtoras Sarah Cambotta e Panamá Filmes, desenhou uma turnê que circulou por vários estados e importantes casas de show, clubes e festivais como Lincoln Center Xangai, Festival de Montreux China e JZ Festival. Foram nove shows e diferentes públicos. Todos interessados em nosso trabalho e na música brasileira. Segundo a imprensa brasileira na China, nossa turnê foi a maior turnê de uma artista brasileira no país.

TURNÊ GEOPOLÍTICA

O Brasil é um país globalmente reconhecido por sua música, e essa é uma grande sorte que temos, o respeito por nossa produção ao redor do mundo. É um soft power orgânico e relacional, com foco na troca e não na dominação. A China é um país que investe bilhões em soft power para ser reconhecida globalmente não mais como replicadora de produtos mas também como autora. Ela tem cada vez mais se empenhado para mudar a percepção do mundo do slogan “made in China” para “created in China”. Estamos em um momento de ressignificação, reivindicação e valorização das nossas autorias, sobretudo por conta da proliferação da inteligência artificial na produção de música. Valorização que digo é sobretudo no sentido simbólico, porque a monetização segue precarizada, vide o repasse das plataformas de música para os artistas. Neste cenário, de crise autoral, reconhecimento de nossas identidades e sucateamento da nossa produção, o encontro entre Brasil e China torna-se potente.

Durante um show no JZ Festival, em Xangai

Fui para a China para uma turnê geopolítica. Como uma autora do Sul Global transitando no BRICS e fortalecida por ele. Em busca de equidade e novas rotas como alternativa à hegemonia ocidental da indústria. Brasil e China são parceiros comerciais com muito talento para serem também grandes parceiros culturais. Ao lançar duas músicas com uma artista chinesa, vi que isso é possível. Existe público, interesse, lugares para tocar. É possível a música brasileira na China e vice-versa. É importante esse diálogo.

Assim como a China quer ser reconhecida como autora, nós também queremos oferecer ao país outras riquezas para além de soja, carne e minério. É possível uma relação de maior cooperação entre os dois países, focada no desenvolvimento mútuo de nossas indústrias. Uma parceria mais ampla, que envolva também a indústria criativa. Entramos em um ano onde os dois governos assinaram uma declaração que tem 2026 como o “Ano da Cultura e do Turismo Brasil-China” para fortalecer ainda mais a relação entre os países. Essa iniciativa é um grande passo para o reconhecimento recíproco de nossas produções. Que possamos nos visitar, circular entre nossas cidades e plataformas tendo a música como tecnologia ancestral e atemporal de aproximação.

O NEGÓCIO NA PRÁTICA

O caminho não é fácil, temos demandas. O mercado da música ocidental é diferente do mercado chinês. As plataformas são outras, e as que usamos por aqui são bloqueadas lá, o que impacta a distribuição. É outro tipo de YouTube, outro Spotify. É um sistema fechado, e as distribuidoras de fora encontram dificuldades na entrega de conteúdos para as plataformas chinesas, pois dependem de parcerias com as empresas locais e um trabalho ainda maior para compreenderem o ecossistema da música chinesa.

Detalhe da capa do single "Alongo", collab de Tulipa com YEHAIYAHAN

Lancei os clipes com YEHAIYAHAN no Brasil e em grande parte do circuito internacional, mas eles ainda não chegaram às plataformas chinesas. Motivo: a única plataforma ocidental de vídeo que opera na China entendeu os videoclipes como lyric videos pelo fato deles terem legenda em mandarim e, por isso, derrubou os arquivos que levaram semanas para serem carregados e aprovados. Acontece que essa regra de lyric video não pode ser aplicada na China, porque lá tudo deve ser legendado em mandarim, como disse no começo do texto, por conta da unificação linguística do país. Ou seja, todo conteúdo audiovisual na China pode ser considerado um lyric video. Na prática, meus videoclipes ainda não estão distribuídos na China porque a plataforma precisa personalizar sua operação no país. A falta de compreensão do contexto chinês impacta diretamente a distribuição de nossas produções.

Como artista, consigo acessar outros artistas, públicos e territórios por meio da música. A indústria deve compreender esses novos territórios assim como nós artistas fazemos. Em muitos momentos, a indústria deve se pautar em nossos processos e não o contrário, para compreender a si mesma. Fui e voltei da China e meu arquivo de vídeo ainda não chegou lá. Pasmem. Não dá pra ignorar o mercado chinês, minha gente. A China faz negócios há mais de 3000 anos. Temos que aprender com eles. Para entender a indústria da música na China, as distribuidoras precisam sair do padrão ocidental global e adotar uma prática local, institucional e culturalmente informada. Torço para que esse texto abra caminhos para isso e estimule práticas de conversa entre os mercados, sobretudo neste ano de cooperação cultural.

DIREITOS AUTORAIS

Em tempos de discussões sobre a valorização de nossas autorias, a obra humana também deve entrar na conversa. Na China, a sociedade de gestão coletiva de direitos autorais musicais é a MCSC - Music Copyright Society of China, que atua sob supervisão direta do Estado chinês, diferente das sociedades no Brasil, que seguem a jurisdição brasileira mas não são controladas pelo Estado. No Brasil, a UBC - União Brasileira de Compositores atua globalmente por meio de acordos de reciprocidade com sociedades de gestão coletiva de outros países. Esses acordos garantem que os autores da UBC sejam representados por entidades locais. Elas recolhem os direitos de execução pública no país e repassam para a UBC, que repassa para seus autores. Para nossa alegria, a UBC tem acordo bilateral com a MCSC, então, se minha música tocar na China, a UBC garante que eu receba por isso.

"Caule de Bambu", o outro single cocriado por ambas

Este acordo entre as duas sociedades mostra como a UBC está na frente no diálogo com o sistema chinês, e tenho certeza que isso irá inspirar também as nossas distribuidoras. Este avanço se dá porque existe um diálogo institucional da UBC com a China que considera a complexidade sistêmica entre os dois países e se propõe a encontrar alternativas de fruição cultural entre os mercados. As instituições e empresas que cuidam de nossas obras e fonogramas precisam caminhar junto com a gente na construção desta relação com a China; senão, seguiremos invisíveis no mercado chinês.

Voltei da China com mais perguntas do que respostas. Mas também com muito tônus para pensar com meus pares da música em estratégias substanciosas para que os países do Sul Global tenham mais representatividade e mobilidade tanto no Oriente quanto no Ocidente. Trabalharemos por isso.

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Tulipa se apresenta na edição chinesa do Montreux Jazz Festival em Suzhou, ano passado
Tulipa se apresenta na edição chinesa do Montreux Jazz Festival em Suzhou, ano passado
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