

por_Eduardo Fradkin • do_Rio
Há 50 anos, chegava às lojas o primeiro disco solo de um jovem e promissor músico. Era Guilherme Arantes, cujo talento já reverberava em todo o país graças à novela "Anjo Mau", na qual emplacara a faixa "Meu Mundo e Nada Mais". Celebrando aquele momento histórico, agora com 72 anos, ele inicia uma turnê nacional neste mês de março, na esteira do lançamento do álbum "Interdimensional", ocorrido no início deste ano. Em conversa com a Revista UBC, reavalia sua carreira e diz que só em tempos recentes sentiu que, finalmente, havia conseguido alcançar tudo que sonhara na adolescência.

No palco, em foto recente
"Dois destaques deste novo disco são músicas feitas para outras intérpretes, e eu quis apresentá-las do meu jeito. A primeira delas é 'Berceuse', que eu fiz para a Alaíde Costa. É uma música muito especial, porque inaugurou uma etapa da minha carreira de compositor em que eu me imaginei a caminho de uma coisa mais séria. É o resgate de um Guilherme que, no início da década de 1970, era louco pelo Taiguara e pelo Egberto Gismonti. Era o tempo do 'Água & Vinho' (álbum de Gismonti), uma obra-prima numa linhagem jobiniana, villa-lobiana", lembra.
A outra canção considerada uma divisora de águas pelo autor é "O Prazer de Viver Para Mim é Você", composta para Claudette Soares, que a gravou em 2024.
"Essas músicas marcam o nascimento de um novo Guilherme, que vai buscar o que aquele menino de 16 anos sonhou fazer. Só recentemente eu tive condições plenas de realizar aqueles sonhos. Para isso, precisei de liberdade de tempo, profundidade poética, bagagem cultural, muita leitura e um aprofundamento nas obras de Tom Jobim, de Chopin, na bossa nova, no samba-canção e em Vinicius de Moraes. Eu fico abismado com a beleza da música brasileira. Eu só fui enxergar isso em Ávila (Espanha), longe da contaminação dos modismos que se escutam nas rádios (brasileiras)", opina ele, que costuma ouvir playlists de cancioneiro antigo com sua esposa, Márcia Miguez Gonzales.
Desde 2017, o casal mora na cidade espanhola, cercada por uma muralha medieval e denominada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.
"Ávila é uma cidade serrana, fria, de ar seco e impregnada pelos cheiros de vinho e de lenha. É provinciana e linda. Os sinos tocam no fim da tarde. É uma cidade que me trouxe paz e serenidade. É muito boa para a terceira idade", descreve o músico paulistano, sem nutrir a pretensão de levar a sua nova turnê, "50 Anos-Luz", para o solo espanhol. "O Brasil já é uma espécie de continente multinacional. Eu nunca procurei desenvolver uma carreira internacional. Talvez dê para fazer um show em Portugal mais para frente.”
DUAS HORAS DE MÚSICA E REFERÊNCIAS
Na turnê dos 50 anos de carreira, Guilherme promete apresentações com mais de duas horas, recheadas de músicas que atravessam diferentes décadas de sua carreira. Sócios da Music On, promotora de shows responsavel pela turnê "50 Anos-Luz", André Matalon e William Crunfli corroboram: disposição de sobra para shows longos e viagens Brasil afora ele tem.
"Definir o Guilherme em uma palavra é difícil, mas usaria 'gênio'. Eu ouço as músicas dele desde a adolescência, e trabalhar com ele, agora, é uma honra. O espetáculo foi montado no mês passado, para uma gravação, e o Guilherme tocou por quatro ou cinco horas seguidas. Ele está na ponta dos cascos, numa grande fase", diz Matalon.
"A ideia da turnê veio do Guilherme, depois de um período afastado dos palcos. Dividimos a turnê pelas principais cidades (do país) em duas etapas, antes e depois da Copa do Mundo (que acontece entre junho e julho). Vamos dar uma paradinha também nas eleições e seguiremos até a primeira quinzena de dezembro", completa Crunfli.

De sua safra mais recente, Guilherme Arantes incorporou ao setlist do tour as belas canções que dedicou a Alaíde Costa e Claudette Soares e, ainda, "Intergaláctica Missão", "Libido da Alma" e "A Vida Vale a Pena", uma parceria com Nelson Motta que abre o disco "Interdimensional".
Não foi a primeira vez que Nelson e ele trabalharam juntos e, provavelmente, não será a última. A admiração do produtor, letrista, jornalista — e um longo etc. — pelo músico vem de longa data.
"Sempre me impressionou, além do talento de melodista, a precocidade do Guilherme. Ele fez a música 'Meu Mundo e Nada Mais' adolescente. Não tinha noção do que estava falando (risos). Admiro muito o seu rigor harmônico, incorporando rock, música clássica e pop brasileiro com um estilo único. Tenho um grande orgulho em ser seu parceiro em 'Coisas do Brasil', uma tecno-bossa, e outras pedradas", diz Nelson à Revista UBC.
Guilherme conta que o sucesso do tema criado para o personagem de José Wilker na novela "Anjo Mau" mudou sua vida da noite para o dia.

"Com o primeiro contracheque que recebi, pelos direitos autorais de 'Meu Mundo e Nada Mais', fui comer uma feijoada no restaurante Um, Dois, Feijão Com Arroz, no Centro de São Paulo. Em seguida, fui a uma concessionária e comprei um Fusca cor de cereja e, depois, uma calça jeans. Ali, comecei a virar adulto. Logo, aluguei uma casinha e fui viver minha vida. Meu pai não gostava que eu fosse músico", recorda-se.
Antes dessa composição consagradora, o paulistano tinha participado do grupo O Polissonante, que contava com Kadu Moliterno no baixo ("ele já era galã, naquela época de colégio, e ficava com todas as meninas", comenta) e da banda de rock progressivo Moto Perpétuo. Foram experiências importantes para seu amadurecimento, mas não lhe abriram as portas do showbiz. Quem virou essa chave foi o cantor e produtor Otávio Augusto, mais conhecido como Pete Dunaway, da banda Memphis. Produtor da gravadora Som Livre, ele fez com que o talento do jovem Guilherme Arantes chegasse aos ouvidos de figurões da indústria.
"Otávio Augusto foi um arcanjo na minha vida. Eu devo tudo a ele e também ao (empresário e fundador da Som Livre) João Araújo e ao Guto Graça Mello, que era diretor artístico da Som Livre e diretor musical da TV Globo. Foram os caras que salvaram a minha vida. Eles olharam para mim e falaram: 'esse menino tem valor e vamos bancá-lo'. Aí, surgiu a oportunidade de a minha música entrar na novela 'Anjo Mau'. Pediram que eu a adaptasse ao personagem do Zé Wilker , que sofria uma traição no início da trama", explica.
Para atender à encomenda, foi essencial a precocidade mencionada por Nelson Motta.
"A minha angústia do final da adolescência estava embutida naquela música. Não era uma criação comercial. Eu acho que tive sorte por já existir o Elton John, e, quando as pessoas viram meu trabalho, fizeram uma associação com o dele. Na verdade, eu tinha elementos de muitos outros artistas, como Cat Stevens e Simon & Garfunkel. O ídolo com quem eu mais me identificava não era o Elton John, e sim o pianista irlandês Gilbert O'Sullivan, conhecido pela canção 'Alone Again'. Outra influência muito importante para mim foi a banda (americana) Bread", enumera Arantes, que também idolatrava muitos brasileiros desde cedo. "O Clube da Esquina, para a minha geração, foi muito maior que Pink Floyd e Genesis.”
SEQUÊNCIA DE NOVELAS
Seguiram-se inúmeros hits e muitas encomendas para trilhas de telenovelas. Entre elas, contam-se "Dancin' Days", com a faixa "Amanhã", "Que Rei Sou Eu?", com "Raça de Heróis", "Vamp", com "Sob o Efeito de Um Olhar" e "Partido Alto", com "Fio da Navalha", moldada para o personagem de Raul Cortez.
"Vários atores se tornaram meus amigos, como José Wilker e Raul Cortez. E também grandes diretores, como Augusto César Vannucci, que foi um cara importante na minha vida. Ele era muito espiritualista e me achava uma antena de mensagens espirituais. 'Brincar de Viver' foi uma encomenda do Vannucci. Ele pediu uma música sobre o amor universal, que seria cantada pela Maria Bethânia, uma espécie de mãe oxum que vinha abençoar as crianças. Eu fui para casa e escrevi os versos: 'como eu sou feliz/ eu quero ver feliz quem andar comigo'. É o amor compartilhado pela humanidade. Eu vejo a Bethânia cantar isso em estádios de futebol, com a multidão fazendo coro, e eu choro copiosamente", confessa o compositor.
Eu refuto a criação por IA, que considero uma bobagem. Nunca gostei de cover. Se eu fosse adotar uma ideia da IA, estaria fazendo cover de uma máquina. ”
Guilherme ArantesEle conta que essa emoção é a mesma que sentiu quando a sua canção "Planeta Água" foi apresentada no Festival MPB Shell de 1981. Composta e interpretada por Arantes, ela foi o grande destaque do evento, transmitido pela TV Globo. Embora tenha ficado em segundo lugar, a música causou comoção no Maracanãzinho, tornando-se um clássico ecológico e gerando polêmica por perder o troféu principal para "Purpurina".
"Aquilo foi uma catarse coletiva, foram 30 mil pessoas unidas como em uma reza, uma oração", define Arantes.
Noveleiro, não perdia um capítulo de "O Bem-Amado", "Saramandaia" e "Pecado Capital". E sempre prestava atenção às trilhas, principalmente às que Marcos Valle assinava. Uma de suas favoritas nasceu de uma parceria entre Vinicius de Moraes e Toquinho: "O Bem-Amado". Ao fazer música para esse meio, Arantes teve o mérito de não sacrificar seus ideais artísticos.
"Eu fico orgulhoso de ver que os anos passaram, e eu construí uma história bela, mesmo dentro de ambientes que me exigiam uma performance comercial, como foram os anos 1980. Naquela década, o Brasil saía do túnel da ditadura, e a luz no fim desse túnel foi a nossa geração. Isso acontece a partir de 'Dancing Days', uma novela que foi um marco. A minha música 'Amanhã' estava lá.Foi um privilégio inacreditável participar desse momento importante do Brasil", conta ele, que vinha burilando aquela canção há anos, escrevendo seus versos em ônibus que pegava no Largo da Concórdia, antes de ter seu primeiro carro.

TESTEMUNHA DE UM NOVO MUNDO
Ao longo do tempo, ele viu (e sobreviveu a) mudanças radicais na indústria fonográfica. Faz tempo que aprendeu a se virar, captando os truques do ofício de produtor (e de outros ofícios também).
"Minha geração pegou um período em que os problemas de produção não eram nossos. Sou remanescente de uma era antagônica. Eu e todos os meus colegas passamos a ter nossos próprios estúdios, com Pro Tools. Sou um nerd, bastante aplicado no aprendizado de produção, de operação de um estúdio, de microfonação, de manejo de amplificadores e toda a parte analógica. Amo válvulas, diodos, capacitores. E fiz a recuperação, por exemplo, do meu sintetizador Minimoog, comprado em 1974. Passei por vários produtores e aprendi com todos eles: Liminha, Marco Mazzola, Max Pierre, Moogie Canazio. Eu consegui montar, na Espanha, um estúdio com teclados e aparelhos antigos integrados a novidades tecnológicas. Virei um expert, sei até implementar o protocolo Dante (transmissão de áudio digital em redes IP baseadas em Ethernet). Acho que sou um Geppetto pós-moderno", proclama.
Em sua oficina, esse Geppetto não cogita usar a magia da inteligência artificial para dar vida a Pinóquios musicais.
"Há ferramentas maravilhosas de IA, mas não de criação. Eu refuto a criação por IA, que considero uma bobagem. Nunca gostei de cover. Se eu fosse adotar uma ideia da IA, estaria fazendo cover de uma máquina. A verdadeira acepção da arte é o processo de criação, e não o produto final. A arte de Van Gogh não está nas imagens dos quadros, mas na presença física das pinceladas feitas por um homem que viveu seus dramas pessoais. É isso que faz seus quadros valerem US$ 100 milhões, e não o resultado visual das pinturas”, decreta. “O resultado é plenamente clonável. Mas o processo por trás dele é algo que a IA não consegue recriar.” •















