UBC anuncia acordo de representação mútua com a sociedade local MCSC
por_Alessandro Soler • de_Pequim
São 20h30 de um sábado fresco de outono em Pequim, e o público ocupa todas as cadeiras do elegante De Factto, misto de loja de discos e casa de shows, para assistir a um concerto de jazz que começa pontualmente. O De Factto é só um entre vários palcos lotados a essa hora no 798 Art District, antigo complexo industrial reconvertido num centro cultural de 250 mil metros quadrados. Tudo é grande e impressionante, mas é só uma manchinha no mapa da gigantesca capital chinesa, nessa mesma noite coalhada de outros shows espalhados por dezenas de palcos.

Jovens circulam à noite pela moderna zona de bares, boates e lojas do Wudaoying Hutong: música sempre presente
Num deles, a estrela é Liu Yuxin, cantora da província de Guizhou com milhões de seguidores em redes. Em outro, o astro David Tao. Num terceiro toca a banda indie Accusefive. Os dois últimos, originários de Taiwan, cantam em mandarim e são bastante apreciados na China continental, um caldeirão cultural que exporta e acolhe a música criada em toda essa ampla e rica vizinhança asiática.
A sensação que se tem, em qualquer lugar em que se esteja nesta cidade — dentro de um táxi, num centro comercial, em bares e restaurantes, nos hotéis, na rua — é que a música não só é plural; ela faz mesmo parte da vida cotidiana das pessoas.
“Os chineses amam música em geral, qualquer que seja, amam consumir cultura. São fãs apaixonados e engajados. Pode parecer surpreendente essa quantidade de shows numa única noite, mas o mercado daqui é assim, cheio de oportunidades para todos”, diz Feng Li, que lidera o quinteto de jazz 盐水凤梨 (ou algo assim como Abacaxi em Salmoura, em tradução livre).
Atração principal do show no De Factto ao qual a UBC assistiu, ela abre sua performance com o clássico da bossa nova “O Pato”, composição de Jayme Silva e Neuza Teixeira imortalizada por João Gilberto, enquanto mais de um fã transmite a performance ao vivo para seus seguidores usando o celular e plataformas como Douyin (TikTok) e Weixin. “Amo a música brasileira”, sentencia Feng.
O jeito de consumir música na China é sui generis e há anos atrai a atenção dos grandes players ocidentais. Plataformas como QQMusic (do gigante Tencent) e NetEase são uma mistura de streaming de áudio com vídeo, tiqueteira e rede social, na qual os usuários interagem entre si e, frequentemente, têm a chance de desfrutar de lançamentos exclusivos e outras oportunidades de contato mais direto com o ídolo, além de comprar ali produtos ligados aos artistas e ingressos para os shows. Como a UBC mostrou ano passado, o Spotify vem testando funcionalidades inspiradas nesse modelo, como o recurso Listening Party, que permite audição exclusiva e até chat direto entre artistas e fãs.
AMOR DE MÃO DUPLA
Para uma criadora brasileira com forte sensibilidade — e muitos hits na bagagem —, essa admiração vai se tornando uma via de mão dupla. A mineira Bibi, compositora de sucessos de Anitta, Luísa Sonza, Pabllo Vittar e, desde o início de março, também da girl band coreana NMIXX, participou de um songcamp promovido pela Universal Music Publishing em Xangai em setembro passado. À exceção dela e da cantora e compositora sueca Clara Mae, todos os demais artistas eram asiáticos: China continental, Hong Kong, Taiwan, Singapura… Bibi voltou impactada.
“Senti várias similaridades entre Brasil e China, principalmente pelas infinitas possibilidades das culturas de cada lugar do país, que se desdobram em diferentes costumes e formações musicais. Somos assim com 210 milhões, imagine eles, beirando 1,5 bilhão”, compara. “A sensação que se tem é que são autossuficientes em tudo, viabilizando a sobrevivência e a prosperidades de todos os nichos musicais.”
Ela conta que chegou a se arriscar em criações e até interpretação em mandarim. E que a definição de pop na China é bem diferente, abarcando de coisas dançantes eletrônicas a baladas e canções com forte pegada poética.
É exatamente isso que faz do chamado mandopop — a resposta chinesa ao k-pop que invadiu a música global — a principal aposta para ajudar a sedimentar o soft power cultural chinês, colocando o país no mapa do mainstream internacional. Elementos para isso não faltam.

A banda Sweet Tie toca no School Bar, templo do rock alternativo pequinês
“O mandopop possui a escala artística e a capacidade de produção para gerar artistas relevantes globalmente. Mas, diferentemente do k-pop, historicamente não foi estruturado em torno de um modelo de exportação totalmente coordenado. Houve tentativas de internacionalização interrompidas pela covid-19. Nos últimos dois anos, esses esforços foram retomados, e o número de faixas em colaboração entre artistas chineses e internacionais aumentou radicalmente”, explica Catherine Benaïnous, produtora cultural francesa que, com seu sócio, Elie Rosenberg, criou a agência musical Dayin Wujie em Chengu, uma metrópole de 21 milhões de habitantes no Sudoeste da China que ela descreve como um dos centros mais dinâmicos para o hip hop e a música eletrônica do país.
A agência atua como uma ponte entre a China e os mercados internacionais, assessorando gravadoras e artistas chineses em sua expansão global, enquanto apoia clientes internacionais que buscam uma entrada estruturada no mercado chinês.
Exemplos concretos de projetos para 2026 incluem a coordenação internacional de um festival de reggae em outubro, o apoio à entrada no mercado e agenciamento de shows para duas bandas francesas e uma brasileira, bem como a coordenação de turnês internacionais na Europa e no Canadá para a banda Manhu.
O hip hop, que Catherine menciona, de fato parece também à beira de um estouro fora das fronteiras do país, com notável aceitação em nações onde há uma forte diáspora chinesa, como Austrália, Canadá e Estados Unidos. Dados de 2023 da Billboard sugerem que até metade dos 5 bilhões de streams obtidos por canções chinesas nos EUA naquele ano foram de trap, hip hop e outros gêneros urbanos.
A ascensão de projetos como SKAI ISYOURGOD, do rapper Lan Lao, com dezenas de milhões de ouvintes mensais em plataformas chinesas e impressionantes 3,5 milhões de ouvintes mensais no Spotify (que sequer atua na China); e o sucesso de turnês europeias de nomes como Higher Brothers e GAI corroboram essa sensação. Que já havia sido vaticinada à Revista UBC há alguns pelo diretor-executivo da Sony Music Greater China, Andrew Chan. Foi durante uma edição da feira musical Midem, que há décadas se realiza no balneário francês de Cannes. “Os gêneros urbanos chineses têm tudo para ganhar o mundo”, ele disse.
ABUNDÂNCIA
Senti várias similaridades entre Brasil e China, principalmente pelas infinitas possibilidades das culturas de cada lugar do país, que se desdobram em diferentes costumes e formações musicais.”
Bibi, compositoraO crescimento impressionante da indústria musical chinesa nos últimos anos mostra que o processo de fermentação desse bolo deu certo. Há uma década, o país não figurava no top 10 dos maiores mercados da música, segundo os relatórios anuais da IFPI, a Federação Internacional da Indústria Fonográfica. Em 2025, chegou ao 5º lugar, com cerca de US$ 2 bilhões (R$ 10 bilhões) gerados pela música gravada — contra R$ 3,5 bilhões do Brasil, em 9º lugar no ranking global. Cada vez mais dinheiro circula graças a uma série de reformas que colocaram a indústria musical do país nos trilhos.

Pessoas numa loja de discos de vinil em Pequim
“Uma limpeza regulatória liderada pela Administração Nacional de Direitos Autorais em 2015 exigiu que as plataformas removessem conteúdo sem licença e fizessem a transição para sistemas formais de licenciamento. Isso marcou uma mudança decisiva que lançou as bases para a monetização sustentável em um setor há muito afetado pela pirataria”, lembra Catherine Benaïnous. “A renovação da concorrência também ajudou a sustentar a rápida monetização do streaming. E essa evolução foi reforçada pela adoção em larga escala de smartphones, apoiada por uma infraestrutura digital robusta e pelo crescimento constante dos modelos de assinatura paga, que agora formam a espinha dorsal da receita da música gravada no país. Respondem por até cerca de 90%, segundo nossas fontes.”
Essa forte conectividade ajuda a explicar a viralização incrível de vídeos chineses nas redes de todo o mundo. Em março deste ano, milhões de perfis em países como Espanha e Brasil foram impactados por cenas de minitelenovelas criadas por IA (ou extraídas da TV e das plataformas chinesas) graças à maciça difusão prévia na China. Em comum a esses vídeos, a grande presença de hits do mandopop e de outros gêneros chineses.
“Canções chinesas estão mesmo envolvidas em grandes virais em redes sociais. E a produção de shows chineses vem se tornando referência para artistas de outras partes do mundo. Há uma validação da cultura do país na dramaturgia, nas artes, na moda, na tecnologia. Para mim, a construção de um sucesso mainstream mundial só vem acompanhada da entrada conjunta de todos esses outros fatores culturais, tal como ocorreu com a ‘onda coreana/ Hallyu Wave’”, afirma Bibi.
FORÇA INDIE

Músicos se apresentam no bar Ping & Min
Se esse mainstream é poderoso, o mesmo se pode dizer do ramificado mundo indie chinês, alimentado por palcos em vilarejos, cidades, metrópoles — e também nos hutongs, os tradicionais bairros de casas baixinhas encravados entre os arranha-céus de megalópoles como Pequim, que mantêm o encanto da arquitetura tradicional, das vielas sinuosas, do silêncio…
Bem, silêncio em termos. Na noite fresca em que a UBC percorreu a capital chinesa ano passado, chamaram atenção (sonora) dois destinos no Wudaoying Hutong, um desses bairros tradicionais convertidos em epicentro de uma cena artística e jovem, com galerias de arte, butiques de moda alternativa, restaurantes e casas de shows. O primeiro desses destinos foi o School Bar, um templo do rock alternativo — sobretudo do punk rock — na cidade, no qual um concerto da banda de rock instrumental Sweet Tie estava repleto de centenas de jovens locais e estrangeiros.
Um QR code para o perfil da banda no Weixin, naquela noite, permitia aos fãs não só se conectar com os artistas e acompanhar sua agenda, mas também financiá-los com doações ao vivo. É uma forma estendida de apoio nesse imenso mercado que transforma projetos musicais populares em financeiramente viáveis, mesmo que estejam fora da ótica das gravadoras.
O mesmo se repetia em outro bar ali perto, o Ping & Min. Um trio tocava mandopop de pegada folk, misturando hits chineses, que a plateia cantava junto, com canções autorais. Por meio de financiamento direto dos fãs e dos pagamentos feitos pelos estabelecimentos contratantes, o grupo liderado pelo cantor, compositor e violonista Li Lei percorre o circuito sem tocar no rádio nem ter um grande esquema de distribuição digital de sua música.
“É como a maioria de nós se mantém. O boca a boca, numa sociedade tão conectada digitalmente como a nossa, pode manter de pé uma carreira de várias maneiras”, ele resume.

GESTÃO COLETIVA
Também contribui para o aumento da renda dos artistas chineses o avanço da gestão coletiva no país. As sociedades locais MCSC (Sociedade de Direitos Autorais Musicais da China) e CAVCA (Associação Chinesa de Direitos Autorais de Áudio e Vídeo) fizeram progressos consideráveis nos últimos anos. Melhoraram processos de licenciamento e fiscalização e garantiram arrecadações mais eficazes em ambientes tão variados quanto os shows e os karaokês, um verdadeiro pilar do ócio asiático.
Só a MCSC arrecadou em 2024, ano de seu mais recente relatório, 477 milhões de yuans (R$ 360 milhões), 11,7% a mais do que no ano anterior. Desde a criação da sociedade, o valor acumulado de arrecadação passa de 4,25 bilhões de yuans, ou R$ 3,2 bilhões. Também no final de 2024, eram mais de 14 mil os associados da entidade.
E a UBC acaba de fechar um acordo de representação mútua com a MCSC. Isto significa que não só os nossos associados que tiverem canções suas executadas em território chinês terão valores arrecadados e enviados pela entidade, como a UBC fará o mesmo com os associados chineses cujas músicas tocarem no Brasil.
Celebrando o acordo, o diretor-executivo da UBC, Marcelo Castello Branco, deixa clara a importância do mercado chinês para o futuro da indústria musical global.
“A China representa todo um novo mundo e uma oportunidade sem precedentes. Nos últimos anos, se consolidou como o 5º maior mercado de música gravada e criou todo um ecossistema próprio, que requer respeito e muito aprendizado. As possibilidades de troca para o nosso repertório são ilimitadas. Nosso acordo bilateral com a MCSC representa uma imensa nova janela que cristaliza nossa presença na Ásia de forma absolutamente dominante”, descreve. “Mais que isso, estamos honrados com esta parceria para trocar experiências, aumentar nosso conhecimento de sua cultura e valores e crescermos juntos dentro de um cenário global cada vez mais desafiador.”

Painel com bandas que já se apresentaram no School Bar
O gerente sênior do departamento internacional da MCSC, Ly Meng, também celebra num comunicado enviado por email:
“A MCSC está entusiasmada em formalizar este acordo bilateral de representação com a UBC. Esta parceria não apenas fortalece a ponte entre criadores de música chineses e brasileiros, como também reflete nosso compromisso compartilhado com a proteção da propriedade intelectual em escala global”, descreve, fazendo uma previsão de trocas produtivas entre os dois mercados a partir de agora: “Esperamos que venha uma nova era de intercâmbio cultural e econômico (entre Brasil e China).”
Um intercâmbio que, no que depender de artistas como Bibi, já começou.
“Fico brincando que meu coração é chinês agora”, ela ri. “Não vejo a hora de voltar para lá.” •















