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Vander

Lee

Tributos e lançamentos inéditos renovam a relevância do cantautor, nos 60 anos de seu nascimento e 10 de morte

por_Ana Gabriela Dickstein do_Rio

Tributos e lançamentos inéditos renovam a relevância do cantautor, nos 60 anos de seu nascimento e 10 de morte

por_Ana Gabriela Dickstein do_Rio

“Dá-me leveza nas mãos / Faz de mim um nobre domador / Laçando acordes e versos / Dispersos no tempo / Pro templo do amor”. Romantismo, delicadeza e bravura se misturam na vida e da obra de Vander Lee (1966-2016), o artista que viveu menino, que morreu poeta e que completaria, agora em março, 60 anos, se não tivesse sofrido um infarto há 10. Com as efemérides, ganham fôlego homenagens póstumas ao cantor e compositor, cuja importância é reconhecida por artistas das mais variadas gerações, de Maria Bethânia a João Gomes.

foto_Marcia Charnizon

Com Elza Soares, em foto sem data

foto_Flavio Venturini

Com a compositora e amiga Cris Vaz

Como conta seu irmão caçula, o também músico Marcos Catarina, a musicalidade de Vander Lee germinou dentro de casa, em Conselheiro Lafaiete (MG). “É uma região de remanescentes quilombolas, com muitas tradições de matriz africana, como congadas, marujadas, folias de reis e festas de reisado”, relata. Congadeiros da comunidade de Rancho Novo, os pais mantiveram a relação com a música, em festejos e encontros, mesmo depois da mudança da família para Belo Horizonte. Com a casa cheia e o rádio de pilha ligado o dia inteiro, a família de oito filhos foi nutrida com uma mistura de gostos, entre música brega e romântica, samba, rock, forró, tropicália e MPB, com destaque para Roberto e Erasmo Carlos, Luiz Melodia, Jards Macalé, Luiz Gonzaga, além dos conterrâneos mineiros Clube da Esquina e 14 Bis.

EXPERIÊNCIA NO EXÉRCITO

Assim como os demais irmãos, Vander Lee colaborava com o orçamento familiar, exercendo as mais diversas atividades, como vender os biscoitos que a mãe fritava (“A gente comia mais do que vendia”, relembra Marcos Catarina). Vander Lee trabalhou também como gandula, profissional de construção civil e em um laboratório de produtos hospitalares. O irmão rememora ainda a experiência de Vander Lee no Exército. “Quando estava de sentinela, ele tocava violão. Então, ia preso e tocava com os presos dentro do quartel.”

O artista passou a peregrinar pelos bares de BH, até decidir se profissionalizar. Seguindo os passos da irmã Ivânia Catarina (1973-2015) – notável participante de festivais, como o de Tatuí, em São Paulo, e o Festican, em Minas Gerais –, Vander Lee deu impulso à própria carreira, depois de vencer o Canta Minas, em 1996, de onde tirou recursos para gravar, em 1997, seu primeiro disco independente, “Vander Lee”.

Vander tinha aquele talento de compositor de música popular. Parece que isso é acessível a todo mundo, mas não é. Tem uma mágica nesse dom.

Chico Amaral

Pai de Lucas, Laura e Clara, Vander Lee decidiu viver exclusivamente da música pouco tempo depois do nascimento do primogênito, fruto do primeiro casamento do artista. “Foi uma coragem muito grande e uma confiança que ele tinha no propósito de vida dele”, afirma Regina Souza, ex-companheira de Vander Lee e atual responsável por seu acervo. Laura Catarina, segunda filha do artista, complementa: “Ele acreditou na sua poesia e na sua obra, batalhou nos momentos de incerteza e resistiu.”

Foi na época da gravação de "No balanço do Balaio” (1999) que Vander Lee conseguiu ampliar o alcance de seu trabalho, quando Elza Soares se encantou por sua obra e o convidou a abrir seus shows. Desde então, canções como “Onde Deus Possa Me Ouvir”, “Estrela”, “Esperando Aviões” e “Românticos” passaram a se integrar ao cancioneiro afetivo da música brasileira, sob as vozes de nomes como Gal Costa, Maria Bethânia, Daniela Mercury, Leila Pinheiro, Zeca Baleiro, Fagner, Fabio Jr., entre tantos outros. Somados os álbuns de estúdio e ao vivo, Vander Lee deixou uma discografia de nove obras, finalizada com “Vander Lee 20 anos – Ao Vivo” (2017). Esse trabalho, que contou com participações de Mariene de Castro e da filha Laura Catarina, havia sido gravado no Rio de Janeiro, pouco tempo antes da morte prematura dele.

ENTRE OS GRANDES DA MPB

Conhecido por suas parcerias com Samuel Rosa, Milton Nascimento, Lô Borges, entre outros, o compositor e instrumentista Chico Amaral produziu o álbum de Vander Lee “Aquele Verbo Agora” (2005), mas nunca chegou a compor com o artista. Para Amaral, o amigo posiciona-se entre os grandes artistas da Música Popular Brasileira. E enumera as razões: “A força, a beleza da música dele, a naturalidade da música dele, aquela musicalidade brasileira das canções, muito bonita, muito evidente.” Amaral ressalta a rara habilidade com que o artista compunha suas canções. “Vander tinha aquele talento de compositor de música popular. Eu comentava com ele que isso era um dom, que parece que é acessível a todo mundo, mas não é. Tem uma mágica nesse dom”, elogia.

foto_Drika Loureiro

Com Luiz Melodia

A filha Laura Catarina, que acompanhou o pai em gravações, ensaios, estradas e bastidores, especialmente na gravação do álbum Loa (2014), destaca a musicalidade dele no cotidiano. “Não dava para diferenciar se ele estava compondo ou se ele estava simplesmente vivendo.”

Para a ex-companheira Regina Souza, foram as diferentes experiências de vida que forjaram a observação aguçada de Vander Lee no seu processo de composição. “Acho que isso impactou esse olhar para o cotidiano, para a vida das pessoas que fazem o Brasil acontecer.”

foto_Acervo Vander Lee

Com Gal Costa

Outra característica da composição em Vander Lee, segundo Amaral, é a força da tradição das canções populares, aliada a uma ambição para ampliar a qualidade das próprias obras. “Ele se preocupava em aprender música, sempre perguntando, experimentando, para poder diversificar a produção. Ele tinha essa ambição de ganhar vocabulário, melhorar o repertório”, aponta.

Com caminho autoral, Vander Lee se inscreve dentro da tradição brasileira dos cantautores, os compositores que aliam composição e interpretação próprias, combinação que Chico Amaral considera essencial. “Sou compositor, imagino a melodia e consigo cantar, mas vejo uma diferença quando se é um cantor treinado. Os cantores vão atrás dessa energia que é o canto, que é a melodia, o canto que traz a melodia”, analisa.

Como exemplo de composição, destaca, na obra de Vander Lee, a canção “ABC”, gravada no álbum Loa (2014), que se inicia com os seguintes versos: “Estou aqui na praça ABC / Relendo o beabá de viver sem você / Sem muito a esperar, um pouco a esquecer / Um tanto a perdoar e outro a entender / A vida me oferece o prato feito do dia / Uma cidade ruidosa, uma agenda vazia / Coisas que eu não precisava junto de você / Que ainda estão sem nome depois de você”. “Eu me identifiquei demais com a maneira poética que ele tratou ali o tema”, confessa.

Já o irmão Marcos Catarina identifica na obra de Vander Lee o retrato de um universo próprio de culturas e paisagens mineiras: “É falar das coisas nossas, falar do Galo (o Atlético Mineiro), do Cruzeiro, das nossas montanhas, trazer os nossos ritmos, a nossa poesia, a nossa melodia, que já tinha no Clube da Esquina, mas que o Vander Lee traz com um legado afro-mineiro muito forte”.

NOVAS GERAÇÕES

Artistas contemporâneos têm celebrado essa obra, que combina força poética e alcance popular, por meio das mais diversas manifestações, desde a regravação de “Esperando Aviões” por João Gomes, no álbum "Raiz" (2023), até uma tatuagem feita por Marília Mendonça (1995-2021) com o verso “Morar No Interior do Meu Interior”, pinçado da canção “Onde Deus Possa me Ouvir”.

Outras homenagens incluíram a interpretação de “No Balanço do Balaio” pela Orquestra Ouro Preto em 2024, sob regência do maestro Rodrigo Toffolo, e, no ano anterior, o lançamento do álbum “Estrela” (2023), que Laura Catarina dedicou integralmente à obra do pai. O show derivado do álbum circulou por cidades de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Ceará e Bahia, e deve chegar também a São Paulo, Pernambuco e outros estados brasileiros.

Para a celebração dos 60 anos, Regina Souza prepara uma série de projetos, a começar por um livro, com previsão de lançamento em agosto de 2026. A ideia é reunir colagens, informações sobre a discografia, letras de música, manuscritos, fotografias e frases de Vander Lee. “É um livro que as pessoas vão gostar de ver e de ler, com as letras e algumas histórias que ele mesmo conta”, adianta. Outro projeto previsto é a realização de um show cênico, a partir de quatro temas principais: o poeta, o sambista, o brasileiro e o romântico. Há ainda planos para uma exposição e um documentário.

Além disso, já está em curso o lançamento gradual de uma coleção de álbuns com gravações de Vander Lee no estúdio. “Vander Lee tinha o costume de gravar. Ele ia para o estúdio e gravava voz e violão. Descobri muitos CDs dessas gravações e tem muita coisa bacana”, lembra Regina. Do baú desse acervo, já havia saído a canção inédita “A Vida Não São Flores”, lançada em 2021. Em dezembro de 2025, foi lançado na íntegra o álbum “Voz e Violão – Volume 1”, e ainda há uma expectativa para mais cinco ou seis volumes, incluindo gravações com os músicos Flávio Henrique e Túlio Mourão.

Entre as homenagens, destaca-se igualmente o bloco Românticos são Loucos, criado por Marcos Catarina em 2018, que desfila pelas ruas de Belo Horizonte celebrando a obra de Vander Lee, sob arranjos de marchinhas. “Acho muito mais festivo e alegre fazer um baile do que tributos tristes”, argumenta. Neste ano comemorativo, foram escolhidas como palco as ruas do Barreiro, bairro onde os irmãos Catarina nasceram, com participação de 200 vozes do Festival Internacional dos Corais. Além do bloco, Marcos Catarina leva adiante o Baile dos Românticos, evento carnavalesco iniciado pelo irmão.

Uma das grandes amigas de Vander Lee, a compositora Cris Vaz marca presença como convidada em alguns desses projetos, promovendo improvisações a partir das letras do artista. “Tem sido muito emocionante porque sinto a presença dele ali no palco”, comenta. Depois da morte de Vander Lee, Cris aproximou-se ainda mais da família, tornando-se madrinha de Aurora, parte de um grupo de quatro netos, nascidos depois da morte do artista. Com lembranças das caminhadas pela Serra da Calçada ao lado de Vander Lee, a compositora resiste como um dos elos que conectam memória e renovação no legado do artista, a quem considera “um mestre, um professor, um gênio”.

foto_Acervo Vander Lee
Com Regina Souza, ex-companheira e atual responsável pelo acervo dele
Com Regina Souza, ex-companheira e atual responsável pelo acervo dele
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